Festa da Chiquita: Sagrado e Profano se encontram
“No segundo domingo de outubro, a bicentenária procissão do Círio de Nazaré é obrigada a conviver com a Festa da Chiquita, o mais tradicional encontro gay da Amazônia que, contra tudo e contra todos, tem lugar no mesmo dia, à mesma hora e na mesma rua”. Esta é a sinopse do filme “As Filhas da Chiquita”, que Priscilla Brasil lançou em 2008 e que conta a impressionante – e purpurinada - história de resistência do evento mais ousado e festivo da quinzena do Círio, que deve receber um público de 700 mil pessoas hoje.
Afinal, é ou não é ousadia demais começar um grande festejo pela diversidade sexual, com direito a concursos, desfiles, muita música e bebida, assim que Nossa Senhora de Nazaré passa? É no momento em que a procissão da Trasladação acaba, por volta das 22h, que as luzes se acendem no palco montado em frente ao Bar do Parque e a Festa da Chiquita inicia. E ela só termina cedo por que amanhã de manhã tem a procissão principal. Se não fosse isso, nunca terminaria, tamanha a empolgação do público, dos artistas e organizadores.
Um show contra a homofobia
“Respeitamos muito ela. A fé é para todos, na hora da festa estão todos na farra, mas no outro dia estão todos rezando. O que queremos com a Chiquita é que temas como a luta contra a homofobia sejam absorvidos pela sociedade. Seremos o primeiro estado a aprovar a lei que criminaliza essa prática”, explicou Eloi Iglesias, artista que é figura simbólica da cultura paraense e encabeça o evento, que em 2011 tem como tema “Além do Arco Íris – Um Show Contra a Homofobia”. O artista citou o projeto 25/2010, da deputada estadual Bernadete Ten Caten (PT), que já foi aprovado pela Assembleia Legislativa e aguarda agora a sanção do governador Simão Jatene.
Durante um ensaio para a apresentação da festa, ele contou que a fantasia que irá usar hoje a noite representa um fauno sagrado e foi confeccionada com mais de 2 mil pedras de cristais Swarovski. Para Eloi, essa 33ª edição representa uma retomada ao velho modo de produzir a festa.
“A Chiquita é uma releitura que fazemos da festividade do Círio, com uma vocação LGBT. É uma manifestação em si, que cresceu o que tinha que crescer e este ano será uma ‘colcha de retalhos’, unindo o que de melhor aconteceu, mas aparando algumas coisas para dar um formato mais dinâmico”, contou ele, acrescentando que área vip, que ficava atrás do palco, voltará a festa, para dar mais conforto aos convidados e homenageados, como o ex-BBB e deputado Jean Willys (PSOL).
Veado de Ouro
Eloi explicou que o convite feito a Jean Willys teve que ser ampliado, devido a satisfação que o deputado sinalizou por ser homenageado pela Festa. “Ele assistiu ao filme, se mostrou entusiasmado e ao invés de receber a menção resolvemos convidá-lo para receber o prêmio ‘Veado de Ouro’, que é dado para quem teve maior destaque no ano. E Jean é extremamente atuante, lutando não apenas pelas questões LGBT, como sendo também uma figura que tem conhecimento sobre assuntos diversos e está empolgado para conhecer a festa e a cidade”, detalhou o organizador da Chiquita.
Eloi frisa que apesar de não querer ser panfletária, a Chiquita faz questão de homenagear pessoas por acreditar que é importante reconhecer as boas práticas, seja de apoio a diversidade sexual e as causas sociais.
Perguntado sobre por que a predominância de políticos entre os homenageados, entre eles o governador Simão Jatene, Eloi disse que a cantora Fafá de Belém também recebe o prêmio “Walter Bandeira”, e que levará os convidados do Camarote ‘Bom Dia Belém’ para conhecer a Chiquita, além de se apresentar no palco da festa.
“A Chiquita é patrimônio imaterial tombado pelo Iphan desde 2004, e é prestigiada por veículos como a G Magazine e o Festival Mix Brasil. As companhias de turismo de São Paulo viram que iriam lucrar com isso e começaram a oferecer pacotes para a festa, e o governo estava perdendo isso”, afirmou Eloi.
“O que mais nos preocupava era a segurança então nesta edição investimos em 100 seguranças particulares”, enfatizou Eloi. De acordo com ele, o governo e a prefeitura apoiaram o evento também destacando 300 policiais da PM e da Guarda Municipal para garantir a segurança do evento.
E essa “farra da sodomia religiosa”, como o próprio Eloi apelidou, apesar de não ser reconhecida pela Diretoria da Festividade do Círio como evento integrante da programação oficial, é prestigiada por todos. “Esse ‘lado profano’ do Círio é o que todo mundo quer descobrir quando vem a Belém nessa época, e o povo paraense reconhece o evento e convive bem. Quem se incomoda é quem dita conceitos e preconceitos. A Chiquita é uma aposta colorida na diferença entre cores e pessoas, e serve para mostrar ao público que os indivíduos LGBT não querem apenas cidadania e respeito, querem também o poder e a igualdade”, resumiu Eloi Iglesias.
33ª Festa da Chiquita. Hoje, após a Trasladação do Círio de Nazaré, por volta das 22h, em frente ao Teatro da Paz, ao lado do Bar do Parque, na Praça da República (Av. Presidente Vargas).