Círio: cada vez mais forte para turismo religioso
De ônibus, avião, de barco. Até a pé. Há duas semanas, Belém vem aos poucos sendo tomada por uma pacífica invasão de crentes nos poderes milagrosos de Nossa Senhora de Nazaré. Na última semana, quando efetivamente aproxima-se o início das festividades que desembocarão no Círio, neste domingo, a população da capital paraense aumenta significativamente.
A Companhia Paraense de Turismo (Paratur) e o Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese-PA) já estimaram a presença de mais de 73 mil turistas durante a programação do Círio de Nazaré.
Há os que vêm pela fé, pura e simplesmente. Como uma antiga tradição de sair do interior do estado e visitar parentes para um almoço também tradicional. E, cada vez mais, há os que se deslocam a Belém motivados pelo que é o chamado turismo religioso.
E é um turismo vital para a cidade. Nos últimos anos, segundo o Dieese, toda a movimentação do Círio faz circular pela cidade pelo menos meio bilhão de reais. Isso contando com o que turistas consomem, mas também com a movimentação interna na cidade. A previsão, segundo o Dieese, é que este ano só os gastos dos turistas ultrapassem 26 milhões de dólares.
Não é um número a ser desprezado. Tanto que a cada ano novos elementos são incorporados à festa. Já são onze atividades. E com o crescimento da romaria feita pelos jipeiros e buggeiros, isso pode aumentar.
Mas para pessoas como José Renato, não são os números que importam tanto assim. O que vale para ele é a fé. Renato, 44 anos, é quem coordena a caminhada de romeiros de Igarapé-Açu até Belém. São 127 quilômetros de sacrifício que, no entanto, parece ser tudo, menos sacrifício para essas pessoas. “Eu fiz promessa por problemas financeiros, mas agora sei que essa caminhada será para toda a vida”, garante.
Quem nunca viu o Círio se impressiona. Seja pelas imagens da TV ou, o que é mais impactante, pessoalmente, o que se vê é algo que aproxima as centenas de milhares de pessoas que seguem rumo ao mesmo lugar, a um ritual medieval, não no sentido de obscurantismo, mas por ser uma manifestação impregnada de histórias e crenças que parecem, num olhar mais minucioso, sem lugar num mundo tão tecnológico como o atual. Mas são rituais que sobrevivem.
Uma democrática festa de fé
A origem do Círio é um exemplo dessa mistura entre crença, história e lenda. Diz-se que em outubro de 1700 um caboclo chamado Plácido de Souza, filho de um português com uma índia, achou na mata uma pequena imagem de Nossa Senhora de Nazaré, às margens de um igarapé.
Plácido leva a imagem para casa, mas nos dias seguintes ela teima em retornar ao mesmo local. Fato? Lenda? Isso não importa muito para os devotos. Fé se explica? Difícil.
Pode-se dizer que o Círio é um mar de peregrinos. São eles que há mais de 200 anos dão sentido a uma festa religiosa que se tornou uma das maiores do mundo. E que ganhou em Belém a reputação de ser o Natal dos paraenses. Pelo menos daqueles que se consideram do Pará.
Círio é lugar de expressão máxima de uma fé difícil de quantificar. Como sintetizar o que sente um promesseiro que percorre de joelhos toda a extensão da caminhada? Da mesma forma, não há como argumentar sobre a veracidade ou não de milagres atribuídos à Santa.
Mas Círio também é festa. De encontro de familiares, de diversões profanas e de arte. E palco também para a sem cerimônia de políticos que gostam de usar disfarçadamente o palanque da fé para uma aparição discreta (ou não). Eles estarão lá, que ninguém duvide.
Só que nem isso tende a estragar a festividade. Círio é democrático. Não importa o manto que cobre a imagem em casa. Importa a devoção que se dá a essa mensagem de fé. E é essa força religiosa que o paraense vai mostrar ao mundo mais uma vez.