Descalça no Círio de Nazaré
Escrevi outro dia sobre minha experiência no primeiro Rock in Rio. Estes dias lembrei que, meses antes do festival, tive outra experiência com multidões. Foi no Círio de Nazaré – cuja procissão acontece hoje em Belém do Pará (é sempre no segundo domingo de outubro, todos os anos). Eu tinha 15 anos e morava por um ano em Belém.
Meu pai, funcionário da Petrobras, havia sido transferido pra lá. Não é fácil para adolescentes mudar de cidade. Também não foi pra mim. Eu tinha a escola, o namorado e muitos amigos. Deixar o Rio de Janeiro, com suas praias e seu astral, era o ingrediente que faltava para a minha tragédia pessoal. E, afinal, será que não havia mesmo jacarés andando pelas ruas em Belém? Era o que eu pensava quando meu pai me deu a notícia. Mas, contra todas as minhas expectativas, foi um ano maravilhoso.
Estudei numa escola muito bacana e encontrei amigos sensacionais. Morei numa rua tão cheia de árvores que não se via o céu. Da varanda do nosso apartamento, no nono andar, a impressão que se tinha era de que os prédios nasciam de um rio de mangueiras. Inclusive o nosso. Os amigos que arrumei gostavam de cultura, música e teatro. Esponja como sou, rapidamente incorporei as gírias paraenses, como exclamar “égua” diante de qualquer coisa incrível. Também adorei os grupos de música locais e as festinhas dominicais que, em 1984, pareciam de clubes do interior. Eu fui tão feliz que nem ligava de perder os shows da Blitz e do Barão no Canecão carioca.
Em outubro, eu estava muito adaptada à cidade. Gostava do tacacá e do pato no tucupi, pegava praia de rio em Mosqueiro e de mar em Salinópolis e freqüentava tudo que eu podia no Teatro da Paz. Foi quando uma amiga da escola me perguntou: você vai ao Círio de Nazaré no domingo? Eu sabia que o Círio era uma procissão em homenagem à santa. Nossa Senhora de Nazaré era o nome da minha escola e eu pensei que estava a par do que viria a ser aquela manifestação popular de fé: um monte de gente andando devagarzinho e entoando cânticos religiosos. Então combinei de dormir na casa de uma amiga que morava mais perto da catedral, de onde sairia a procissão. Meu motivo não era religioso. Era apenas curiosidade. Curiosidade e farra de estar com um grupo de amigos, claro.
Eu estava errada. Mas só descobri quando perdi meu primeiro sapato, carregada pela multidão. Horas antes disso acontecer, cheguei cedinho com meus amigos no ponto de partida do Círio. Ainda não tinha muita gente. Mas foram chegando. Quando a procissão saiu, acompanhamos a multidão. A cada passo, mais gente nas ruas se juntava ao grande grupo. Até que não era mais possível saber o tamanho daquilo. Não tinha começo, não tinha fim. A cada rua, mais e mais gente parada nas esquinas se juntava. E começou a ficar muito, muito apertado. Mas ainda era o início.
De repente, começamos a ser jogados de um lado para o outro. “É a corda”, explicou minha amiga. E eu explico pra quem não sabe: essa corda envolve o local em que vai a imagem da santa. É grossa e muito pesada, coisa de 700 quilos. É longa, tem várias pontas (fui pesquisar, tem 400 metros de comprimento). Muita gente faz promessa de ir segurando essa corda. Não pode largar. Como são muitas, muitas pessoas, elas vão empilhadas, grudadas, ás vezes com os braços esticados, segurando a corda pela ponta dos dedos. Ser obrigado a largar a corda é um drama. É o fim. Por isso muita gente se agarra na corda com tanta força que fica com as mãos sangrando. Então a corda vira uma onda de gente. E essa onda chegava em mim, me jogando de um lado pro outro.
No meio desse furacão, avisei: vou sair. Não dá mais. “É? Como?”, perguntou minha amiga, provavelmente arrependida de não ter me explicado direito onde eu estava me metendo. Foi então que eu descobri que uma vez no meio da procissão, não dá pra sair. O mundo de gente tomava asfalto e calçada e encostava aos prédios. Não havia espaço pra escapar. Minha amiga disse que em algumas ruas mais largar talvez eu conseguisse. O problema é que nas vias apertadas o bicho pegava. Numa delas, meus ombros foram espremidos e, por alguns segundos, meus pés saíram do chão. Soa como milagre da santa, mas foi literalmente um inferno. E então perdi meu primeiro sapato.
Com um sapato só e pensando que, pra passar por aquilo tudo, eu devia pelo menos ter feito uma promessa, comecei a pensar alguma coisa para pedir à santa. Sou de família católica, mas nunca havia freqüentado igreja e nem feito a primeira comunhão. O problema é que aos 15 anos, quando você tem tudo que precisa de verdade, é difícil fazer um pedido pra uma santa tão importante que não pareça bobagem. Nos carros que iam pela procissão, as pessoas jogavam pedaços de corpo feitos de vela, pedindo a cura para si mesmos ou parentes. E também casas de cera, desejando que Nossa Senhora lhes desse um teto. Não dava pra eu pedir um headphone novo. Enquanto eu tentava me decidir, perdi o outro sapato.
Então eu estava ali, no meio de dois milhões de pessoas – que é o público médio das procissões do Círio, considerado a maior manifestação religiosa do mundo – descalça, como uma estranha cinderela, e sem sequer saber o que queria desejar pra mim. O jeito era relaxar e apreciar aquilo tudo. Olhar para os rostos, as lágrimas, reparar o que cada um pedia à santa. Foi o que eu fiz, até chegarmos à praça onde fica a Basílica de Nossa Senhora de Nazaré, já perto de onde eu morava, e que é o fim da procissão. Naquele ponto, eu já sabia cantar de cor o hino da santa. Ó Virgem Mãe amorosa/Fonte de amor e de fé/Dai-nos a benção bondosa/Senhora de Nazaré. Que ficou na minha mente durante o dia todo, enquanto eu comia pato no tucupi no almoço comemorativo e recebia os votos de Feliz Círio. Em Belém, é como o Natal. Todos se reúnem, se telefonam, trocam presentes. Hoje devem estar fazendo isso tudo por lá.
Nunca mais voltei a Belém, mas guardo pra sempre essa aventura. Foram-se os sapatos, ficou uma história para contar.
Martha Mendonça é editora-assistente de ÉPOCA no Rio de Janeiro.