PostHeaderIcon Ruínas do Engenho Murutucu em discussão

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De grama aparada, livre da mata espessa que encobria o prédio até semana passada, as ruínas do Engenho Murutucu não pareciam tão mal assim. A construção datada do início do século XVIII recebeu um cuidado especial por parte da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Amazônia Oriental, após as denúncias de negligência repercutidas na imprensa.

“Está havendo um mal entendido. A área está sendo preservada pela Embrapa. Nunca destinamos o terreno para nada. A entrada de carros e maquinário é proibida. A acusação de abandono nos surpreendeu. São ruínas, afinal de contas. Nem as de Pompéia (sítio arqueológico localizado ao sul da Itália, datado do século 79 a.C.) estão em bom estado de conservação”, ironiza Cláudio Carvalho, chefe-geral da Embrapa.

De acordo com nota emitida pela assessoria de comunicação, todos os meses há roçagem manual e mecânica no local. “Por se tratar de um bem público, a visitação não é proibida, desde que solicitada à Embrapa e agendada com antecedência”, assegura empresa pública federal em comunicado.

As acusações de abandono partiram do dramaturgo Carlos Correia Santos, após uma visita as ruínas para uma sessão de fotos para a divulgação de seu mais novo projeto, a peça “Batista”. Em reportagem ao VOCÊ, publicada no último dia 17, ele classificou a condição do prédio de “vergonhosa”. Convidada a acompanhar a sessão de fotos, nossa equipe foi impedida de entrar na área pela segurança da Embrapa.

Em e-mail assinado pela superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional no Pará Iphan/Pará, Maria Dorotéa de Lima, o órgão responsabiliza a Embrapa pelo descaso. O Iphan informa ter acionado a empresa junto ao Ministério Público Federal (MPF) demandando que a mesma assuma a segurança e preservação do sítio. Desde 1981, as ruínas do Engenho Murutucu são tombadas como patrimônio histórico pelo Iphan.

“Nós somos uma empresa de pesquisa em agropecuária, gerenciar um sítio arqueológico foge à nossa missão. Mas não fugimos da nossa responsabilidade de zelar por esse patrimônio. Por diversas vezes, nos reunimos com a Fumbel (Fundação Cultural do Município de Belém), a Secult (Secretaria de Estado de Cultura), a Paratur (Companhia Paraense de Turismo), o Iphan, para trabalharmos conjuntamente, mas as negociações não caminham”, conta José Maria Vieira, advogado da Embrapa.

A empresa apresentou documentos que comprovariam um projeto de restauração da casa, elaborado em 2008 por técnicos da Secult, e encaminhado para o Iphan. “Nunca recebemos resposta”, afirma Vieira.

Sítio arqueológico nunca foi estudado

O monumento está sob os cuidados da empresa desde 1940. Localizado as margens da estrada da Ceasa, no bairro do Curió-Utinga, as ruínas pertencem à área de 2,6 mil hectares que compõem o campus da Embrapa, em Belém. “Não há riscos de desabamento”, afirma pesquisador – “Se o engenho do Murutucu não estivesse em posse da Embrapa, provavelmente nem as ruínas existiriam mais”, atesta Fernando Luis Tavares Marques, arquiteto e pesquisador em arqueologia do Museu Emílio Goeldi.

Desde 2005, ele integra o projeto “Arqueologia e História de Engenhos Coloniais no Estuário da Amazônia”. O estudo aponta que na bacia do rio Guamá, no ano 1790, chegaram a existir aproximadamente 100 engenhos de cana de açúcar em atividade. A atividade agro-industrial se tornou tão importante economicamente para a região que poucos anos depois, no século XIX, o número de engenhos dobrou. “Quase nenhuma dessas construções sobreviveram à expansão das cidades e à depredação.

Os casarões históricos são alvo de saque até hoje, para se reaproveitar seus tijolos e madeira, por exemplo. O Engenho do Cafezal (no município de Barcarena) sumiu em pouco menos de dois anos, após seu abandono na década de 80. O Murutucu, por estar em uma área restrita, sobreviveu”, revela o pesquisador.

Segundo o técnico, as ruínas apresentam um bom estado de conservação, que se dá, em parte, à intervenção ocorrida em 1995, quando foi aplicado um impermeabilizante e as estruturas do prédio foram reforçadas. Durante a abertura da estrada da Ceasa, parte da sede do engenho foi derrubada por trabalhadores para utilizar os tijolos para tapar buracos na via. A empreiteira responsável foi indiciada pelo MPF a reformar o local.

“As ruínas vêm respondendo bem desde a última intervenção. Já que as ruínas não contam com monitoramento constante, o mato alto é até bem-vindo. Existem porções das ruínas que provavelmente já teriam sumido por exposição à chuva ou ação de ladrões, se não estivessem encobertas. O ideal seria a ocupação do local por pesquisadores, o sítio arqueológico do engenho do Murutucu nunca foi estudado. Pela importância econômica e histórica que teve, poderemos aprender muito com ele”, avalia Marques.

O engenho foi um dos mais prósperos de sua época. Produzia açúcar e aguardente, e chegou a contar com 100 trabalhadores, entre escravos e livres, acima da média para padrões do período.

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